CÍRCULO INTERNACIONAL SHAHBAZ BAHTTI
NIGÉRIA | 43 mil cristãos mortos — O silêncio do mundo
Novo massacre no estado de Plateau volta a expor a violência sistemática contra comunidades cristãs no Cinturão Médio
Na noite de 22 de junho de 2026, a pequena aldeia cristã de Kawel, no estado de Plateau, Nigéria, foi palco de mais um episódio devastador de violência. Pelo menos 28 cristãos foram mortos num ataque brutal atribuído a militantes armados fulani, que invadiram a localidade, cortaram as comunicações e abriram fogo contra civis indefesos.
Entre as vítimas encontram-se um pastor, um médico e vários pacientes de um posto de saúde local. Casas foram incendiadas, famílias destruídas e sobreviventes deixados em choque profundo.
Este ataque não surge isolado, mas insere-se num padrão persistente de violência contra comunidades cristãs no chamado Cinturão Médio nigeriano.
:: O ataque a Kawel ::
Segundo testemunhos de sobreviventes, os atacantes chegaram durante a noite, bloqueando qualquer possibilidade de pedido de ajuda ao cortar as telecomunicações da aldeia. Qualquer pessoa que tentasse sair de casa era imediatamente alvejada.
O sobrevivente Jesse Peter Dukut relatou que os agressores pareciam conhecer os líderes cristãos pelo nome, sugerindo um nível de coordenação e informação local preocupante. “Mataram meu tio e meus irmãos. Por pouco não fui baleado”, afirmou.
Outro residente, Godswill Nuhu, confirmou a morte do pastor Markus Nyam, líder da Igreja de Cristo nas Nações, bem como de membros da sua congregação. Entre os mortos estavam ainda profissionais de saúde e doentes que se encontravam no centro médico da aldeia no momento do ataque.
Apesar da intervenção da polícia estadual, os atacantes conseguiram fugir e, até ao momento, não foram efetuadas detenções.
:: Um padrão de violência repetido ::
O estado de Plateau e outras regiões do centro da Nigéria têm sido palco recorrente de ataques contra comunidades agrícolas, muitas vezes de maioria cristã. Diversos relatórios internacionais e organizações de monitorização da liberdade religiosa têm alertado para a escalada da violência e para a atuação de grupos armados que operam com elevado grau de impunidade.
Algumas estimativas provenientes de relatórios e organizações internacionais indicam que cerca de 43 mil cristãos terão sido mortos nas últimas décadas na Nigéria, no contexto desta violência prolongada.
A Nigéria figura entre os países onde mais cristãos são mortos ou perseguidos por motivos religiosos, segundo organizações internacionais de defesa da liberdade religiosa, incluindo a Portas Abertas. Esta realidade aponta para um problema estrutural e prolongado, e não para incidentes isolados.
:: A Questão do Silêncio Internacional ::
O que mais fere não é apenas a violência em si, mas o silêncio que frequentemente a envolve. A repetição destes massacres, sem respostas proporcionais da comunidade internacional, levanta questões profundas sobre a proteção de minorias religiosas e a eficácia dos mecanismos globais de prevenção de genocídios e perseguições sistemáticas.
A ausência de ação concreta, ou mesmo de uma atenção continuada mediática e política, contribui para a sensação de abandono sentida por muitas destas comunidades.
O massacre de Kawel não pode ser reduzido a mais uma estatística. Cada vida perdida representa uma família destruída, uma comunidade fragilizada e uma ferida moral no nosso tempo.
Ao longo das últimas décadas, diferentes estimativas e relatórios internacionais apontam para dezenas de milhares de mortos na violência religiosa e intercomunitária na Nigéria, incluindo cerca de 43 mil cristãos vítimas deste ciclo de ataques, um número que revela a dimensão trágica e prolongada desta realidade.
A Nigéria continua a ser palco de um sofrimento que exige não apenas solidariedade, mas também responsabilidade internacional, investigação séria e proteção efetiva das populações civis.
O silêncio perante este tipo de violência não é neutralidade — é, de certa forma, uma forma de cumplicidade pela omissão.
Que a memória das vítimas de Kawel não seja esquecida e que a sua dor não permaneça invisível.
Bruno Fernando de C. Guedes
Presidente do Círculo Internacional Shahbaz Bahtti



