terça-feira, 27 de dezembro de 2022

SILERE nº17

 

           


                 Presépio  - séc.XVIII ( Basílica da Estrela – Lisboa)

                                             

                              SILERE NON POSSUM

           (Não me posso calar – Sto AgostinhO)

         “Para destruir um povo é preciso destruir as suas raízes.”

                                       ( Alexandre Soljenitsyne)

                    Carta aos meus amigos – nº 17

 

 

 

                       BRAGA – 22 de DEZEMBRO de 2022

   

+

PAX

 

Caros Amigos:

 

 

  “A beleza deste Evangelho não cessa de tocar o nosso coração: uma beleza que é esplendor da verdade. Não cessa de nos comover o facto de Deus Se ter feito menino, para que nós pudéssemos amá-Lo, para que ousássemos amá-Lo, e, como menino, Se coloca confiadamente nas nossas mãos. Como se dissesse: Sei que o meu esplendor te assusta, que à vista da minha grandeza procuras impor-te a ti mesmo. Por isso venho a ti como menino, para que Me possas acolher e amar.”

( Papa Bento XVI, 25.XII.2012)

 

 

 

 … É este o verdadeiro sentido do Natal, o Amor, que se manifesta em movimento para o outro, do “ Totalmente Outro para o outro”, “ encarnou” neste Menino que vem a mim e a todos para que, na sua riqueza pobre nos possamos tornar pobres ricos  ao e para O acolher e o centrar no nosso coração, na nossa vida. Infelizmente, perdemos o Amor feito Menino que “ natalizou” para nós.

   Hoje, e cada vez mais, “ destalalizamos” o Natal, o nascimento do Menino porque não O queremos acolher e amar. Será porque já não o conhecemos?

--- Por isso, “desnatalizaram” o Natal! Substituímos o Menino por ídolos.

Não sei se o verbo “ desnatalalizar” existe nem isso me preocupa.  Sempre se criaram neologismos e não vejo nenhum mal nisso.

“Desnatalizar” significa, para mim, descaracterizar o Natal, retirar dele e do seu significado a sua essência fundadora : celebrar o “ Nascimento de Jesus “, o “ Hodie “ ( hoje ) sempre eterno. E esta celebração que era festa  perdeu o seu significado profundo . O Hoje deu lugar ao  hoje e agora  de ruído , de  efémero e de consumo desenfreado. Fomos invadidos por velhos decrépitos vestidos de vermelho e carregados de sacos  cheios de inutilidades. Já nem as renas os puxam em trenós .  De “popotas” desajeitadas e bamboleantes. De leopoldinas  avestrúzicas  e de outras quimeras cuja função é convidar-nos ao consumo desenfreado…  Até os cânticos de Natal ,tão  belos que tantos pareciam ter sido criados por anjos ( lembra-se os leitores de, por exemplo, o “ Adeste fideles “ ou outros mais populares que todos sabíamos de cor ? ).

Lembram-se do orgulho em ir colher à horta, na tarde daquele dia , “ aquelas” tronchudas ( pencas ) tenras e macias que a geada havia “ massacrado”?  E lembram-se das magníficas e saborosas batatas, as melhores da colheita do ano, que naquela  noite todos apreciavam? Lembram-se da azáfama nas cozinhas na preparação daquela ceia mágica que tinha sempre, em cada família ,doces próprios e que só nesta quadra se faziam? Lembram-se de que na lareira de cada família ardia lenha escolhida a que nunca faltava um grande e grosso toro de carvalho ou sobro para arder até tarde? Lembram-se de como se rezava o Terço a que todos se associavam, mesmo aqueles que pouco praticavam ao longo do ano? Lembram-se que naquela noite estavam presentes os vivos mas se não esqueciam os familiares já falecidos, em verdadeira comunhão  entre vivos e mortos? Lembram-se dos jogos de cartas, dos pinhões para  o “ rapa - tira-deixa- põe ) ou do “ par ou pernão”? Lembram-se do anel enfiado num mais ou longo fio ( consoante o número de jogadores ) e da lenga-lenga “ Babona que estás no meio …”? Lembram-se das estórias que se contavam naquela noite, e muitas só naquela noite se contavam ,  que era de lazer para a família somente preocupada em fruir da presença aconchegante dos presentes e da saudade dos ausentes ? Não se fiava a lã ou linho. Não se lia  qualquer livro de distração. Não de fazia renda. Estava-se ali. Juntos. Numa alegre saudade e nostalgia.  Mesmo se fora de casa o vento soprava forte e a geada se formava e forrava o chão e as ervas, lá dentro, dentro de cada casa que tinha alma, cheiro e sons únicos , havia vida tantas vezes , noutros dias, tão sofrida pelas agruras da vida.

Entretanto, normalmente a partir do dia 8 , dia grande da Imaculada, Senhora, Madrinha, Mãe  e Rainha de Portugal  ( havia tantas Maria da Conceição! ) começava a preparar-se o presépio em lugar de destaque e que fosse visto e admirado por todos, sobretudo naquela noite que tinha uma magia vinda do céu, a noite de 24 de Dezembro. Os mais novos traziam musgo.  Musgo verdadeiro e verdadeiramente verde . Muito. Construía-se uma cabana , se não já a havia de outros anos . Iam-se buscar as figuras , nunca faltando a Sagrada Família, centro de onde irradia(va) a centralidade daquela festa. Depois, de acordo com as possibilidades de cada família, podia haver pastores, Reis Magos, Anjo com um dístico, em latim ( “ Gloria in excelsis Deo!) que todos sabiam o que queria dizer. Por vezes não faltava o moleiro, a lavadeira de roupa , o rapaz que trepava um mastro para ir buscar um bacalhau miniatura bem em cima… Era à volta deste presépio ou à sua volta que se “ botava “ o Terço naquela noite.

E havia presentes. Para as crianças. Poucos, que a vida era difícil . Poucos, sim ,  mas enchiam de alegria os miúdos que só os recebiam na manhã do dia seguinte, gritando exclamações de espanto por aquilo, tão simples, que o Menino Jesus tinha deixado. Sim, era o Menino Jesus que ali tinha estado, mal eles sabiam que os Pais eram e se assumiam como o Menino Jesus.

Desde a noite anterior que sabiam que o Menino iria a sua casa e por isso, no final do Terço, com a dezena final já tão ritmada pelo cabecear do sono, beijavam a imagem de Jesus  com ternura e imaginação !

Hoje ainda há Natal?

O consumo prima sobre tudo. Em muitas casas já não se constrói o presépio. O Terço foi abandonado. As crianças são “ atafulhadas” de brinquedos a que tantas vezes já não dão qualquer valor ou atenção.

Saneamos Jesus, o Menino Jesus, das nossas casas. Se ainda se põe algum lembrete de que estamos no Natal, só o vemos na árvore num canto da sala e nos “ quilos “ de papel amarrotado que, no final da noite, é preciso arrumar. A magia da cozinha desapareceu. Compra-se tudo feito. O amor de confeccionar as rabanadas, os mexidos ou os sonhos e outros doces natalícios foi varrido por incómodo.

Desnatalizaram o Natal!

Desnatalizámos o Natal!

Deixamo – nos invadir por esta onda cristianófoba. E sem memória. Consumista hiperbolicamente. Cheia de regras de higiene fiscalizada e de almas sem higiene nenhuma.

Tenho pena da “ desnatalização “ do Natal . Tenho saudades do Natal.

   Varremos da nossa vida esta grande festa, hino à beleza que é esplendor da verdade.

   Para todos os meus Amigos-leitores e suas famílias, desejo um SANTO NATAL!

 

 

Carlos Aguiar Gomes , para o Natal de 2022

 

domingo, 25 de dezembro de 2022

Sto ODON - oração para o Natal

 

                                 ORAÇÃO DE SANTO ODÃO de Cluny para o Natal *

 

«Ó Senhora e Mãe de Misericórdia, Vós, que nesta noite, deste à luz o Salvador, dignai-Vos na Vossa bondade  interceder por mim  com as Vossas orações ¸ eu me refugio na Vossa gloriosa e única  gravidez, Mãe boníssima.

Inclinai também os ouvidos da Vossa bondade para as minhas orações. Temo tanto que a minha vida desagrade a Vosso Filho! E já que foi por Vós, minha Senhora, que ele se manifestou ao mundo, graças a Vós também, eu suplico-Vos que Ele tenha piedade de mim sem demora.»  Amen.

 

·         Monge beneditino do Mosteiro de Cluny (França) de que foi o 2º Abade, dando origem aos beneditinos Negros (de hábito preto). Este Mosteiro está na origem do ramo  cluniacense, mais conhecidos só por beneditinos. Nasceu em 878(?) e faleceu com 64 anos a 18 de Novembro de 942.

                                          

                                                             Santo Odão ( Odon) de Cluny




 

 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Dá-me , Senhor....

                                



                             "Dá-me, Senhor, coragem e alegria

                               para escalar o cimo deste dia." ( Borges)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

TENDÊNCIAS PARA ENTORNAR O CALDO...

                                 TENDÊNCIAS PARA ENTORNAR O CALDO...

Vivemos um tempo de grande progresso, sim, mas também de grande ameaça. O homem parece ameaçado pelo resultado do seu trabalho, da sua inteligência e das tendências da sua vontade. Há medo dos ambiciosos com cerviz dura e coração de pedra! O homem teme que alguns dos seus produtos, “aqueles que encerram uma especial porção da sua genialidade e da sua iniciativa, possam ser voltados de maneira radical contra si mesmo; teme que eles possam tornar-se meios e instrumentos de uma inimaginável autodestruição, perante a qual todos os cataclismos e as catástrofes da história, que nós conhecemos, parecem ficar a perder-se de vista”, isto afirmava São João Paulo II na sua primeira Carta Encíclica, Redentor Hominis, em 1979 (RH15), que relemos. Denunciava que, de facto, o progresso, sob vários aspetos, torna a vida humana mais digna do homem, mas parece que não o torna verdadeiramente melhor. Embebecido pelo seu poder, pela euforia do seu bem-estar, pelo entusiasmo das suas conquistas, nem sempre o homem prima pelo seu progresso moral e espiritual, nem sempre o progresso é acompanhado pelas exigências objetivas da ordem moral, da justiça e do amor social. E tantos são os sintomas desta doença a reclamarem soluções audaciosas e criativas, de harmonia com a dignidade do homem! Sim, será verdade, perguntava-se ele, que o progresso tem tornado o homem “mais amadurecido espiritualmente, mais consciente da dignidade da sua humanidade, mais responsável, mais aberto para com os outros, em particular para com os mais necessitados e os mais fracos, e mais disponível para proporcionar e prestar ajuda a todos”? Será que o homem, “enquanto homem, desenvolve-se e progride, ou regride e degrada-se na sua humanidade?”. Sem sermos pessimistas e aplaudindo entusiasticamente o progresso da ciência, da técnica e de todo o saber humano – fruto maravilhoso dos talentos que Deus dá a cada um para que cada um os coloque a render ao serviço de todos! -, muito desejaríamos que entre os homens, à medida que se vai progredindo, crescesse o bem, o amor social, o respeito pelos direitos dos outros, o respeito pela terra sagrada de cada nação, de cada povo. Constata-se, porém, que em vez disso, crescem os egoísmos, os nacionalismos e imperialismos doentios, a tendência para dominar os outros numa ambição de poder sem limites. E “nada mais pequeno que um grande dominado pelo orgulho”, dizia Clemente XIV. A par, constata-se o sofrimento dos mais frágeis e o daqueles que já não produzem e as sociedades consideram como um peso a descartar. Alguém lembrava por estes dias que, só no Canadá, no ano passado, foram eutanasiadas 10.000 pessoas. Referia que o próprio Diretor do Instituto Canadiano para a inclusão e cidadania da Universidade da Colômbia Britânica, descreveu a lei canadiana como “provavelmente a maior ameaça existencial para os deficientes desde o programa nazi da Alemanha nos anos 30 (do século XX)”.
Eu sei, foi Jesus quem primeiro estabeleceu a regra de separação entre o poder temporal e espiritual, princípio hoje consolidado nas nossas democracias, embora durasse muitos séculos a ser implementado: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Este princípio, porém, não isenta que também César saiba dar a Deus o que é de Deus e ao povo o que é do povo: “Não matarás” (Ex 20,13). “Por isto vos hão de reconhecer: se vos amardes uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 13,34-35). E Pilatos perguntou a Jesus: “De onde és tu?” Jesus ficou calado. Então Pilatos perguntou: “Não me respondes? Não sabes que tenho autoridade para te soltar e autoridade para te crucificar?” Jesus respondeu: “Não terias nenhuma autoridade sobre Mim se ela não te fosse dada por Deus” (Jo 19, 9-11). Quando, quem está legitimamente investido em poder, perde a origem e a razão de ser do seu lugar e da sua missão, temos o caldo entornado, temos pigmeus arvorados em deuses a pensar que tudo lhes é permitido! A História é mestra em tais lições!
Como guardião do mundo visível que lhe foi confiado, o homem não deve ser ‘o lobo do outro homem’, na célebre frase de Thomas Hobbes. Mas sê-lo-á tanto mais quanto mais viver preocupado e excessivamente ocupado com o ter cada vez mais em detrimento do ser cada vez mais e melhor; quanto mais o foco da sua atenção forem as estruturas rentáveis, os mecanismos financeiros, e monetários e produtivos e comerciais, delapidando, inclusive, a seu bel-prazer, os recursos naturais, como sôfrego explorador e não como nobre senhor e guarda inteligente e respeitoso da criação; quanto mais prioridade der à técnica que à ética, às coisas que às pessoas, à matéria que ao espírito; quanto menos procurar responder, com determinação absoluta, às situações sociais injustas, aos desafios urgentes e às exigências éticas do presente. Este seu proceder, faz aumentar as zonas miseráveis e aumenta os pobres a caminharem de braço dado com a angústia, a frustração e a amargura.
O homem não pode perder o fio à meada nos dinamismos da vida e da civilização, “não pode renunciar a si mesmo, nem ao lugar que lhe compete no mundo visível; não pode tornar-se escravo das coisas, escravo dos sistemas económicos, escravo da produção e escravo dos seus próprios produtos. A civilização de feição puramente materialista condena o homem a tal escravidão” (cf. RH15-16).
O progresso é, na sua origem e na sua essência, uma vocação, afirmava Paulo VI na Populorum Progressio (PP15). E o Papa Bento XVI, citando-o na Caritas in Veritate, acrescenta que a vocação é um apelo que exige resposta livre e responsável. Então, como vocação, o desenvolvimento humano integral supõe a liberdade responsável da pessoa e dos povos, supõe o respeito pela sua verdade, supõe a centralidade da caridade, isto é, a fraternidade entre os homens e os povos. Se assim não for, “A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos” (cf. CV17-19). E é pena!
A verdade vos libertará (Jo 8, 32), disse-nos Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade (Jo18,37). Unindo-se “de certo modo a cada homem”, Deus, em Cristo e por Cristo, revelou-se plenamente à humanidade, aproximou-se definitivamente dela, e o homem foi ganhando mais consciência da sua dignidade, da sua elevação, do valor transcendente da própria humanidade e do sentido da sua existência (cf. RH11).
O homem não pode fugir de si mesmo, não deve relativizar a verdade ou viver de aparências, não deve querer notabilizar-se destruindo os outros. A sua autonomia e liberdade, a sua capacidade de criar, de progredir e se organizar em sociedade, implica respeito por todos, implica uma relação responsável e honesta com a verdade sobre si mesmo e os outros, sobre as coisas e sobre o mundo (cf. CV).
+Antonino Dias
Bispo de Portalegre-Castelo Branco, 16-12-2022.

domingo, 18 de dezembro de 2022

18 de Dezembro - festa DE NOSSA SENHORA DO Ó

 





                                        Hino a Nossa Senhora do Ó

               

Expectante, estais Senhora!

No sacro ventre trazeis a Vida

Desde sempre prometida.

Expectante, estais Senhora!

 

Expectante, estais Senhora!

Humilde Serva do Senhor,

 Doce Mãe do Salvador.

Expectante, estais Senhora!

 

Expectante, estais Senhora!

Sempre e sempre pura

Mãe da suprema ternura .

Expectante , estais Senhora !

 

Expectante, estais Senhora !

D`Anunciação ao Advento

Esperando o Nascimento

Expectante, estais Senhora !

 

Expectante, estais Senhora!

Nossa Senhora do Ó!

Expectante, estais Senhora!

Nossa Senhora do Ó!

                                                                    Carlos Aguiar Gomes, na preparação da festa de Nossa Senhora do Ó, 2014

sábado, 17 de dezembro de 2022

SILERE nº 16

                        







                

              

          


             SILERE NON POSSUM

            (Não me posso calar – Sto Agostinho)

          “Para destruir um povo é preciso destruir as suas raízes.” ( Alexandre Soljenitsyne)

                     Carta aos meus amigos – nº 16

                       BRAGA – 15 de DEZEMBRO de 2022

   +

PAX

 

Caros Amigos:

 

 

         

 

          All human lives matter!

 

 

 

  Nossa Senhora da Expectação ou do Ó, uma invocação da  `THEOTOKOS, a Santa Mãe de Deus que aguarda o nascimento do Seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, é uma devoção antiquíssima. Talvez anterior ao século X. Em Toledo, naquele século, já se celebrava a festa da Expectação do Parto. Depois difundiu-se por toda a Cristandade. Entretanto foi caindo em esquecimento mas manteve-se em Toledo e em Braga onde fazia parte do calendário litúrgico do Rito Bracarense. Nesta Arquidiocese portuguesa manteve-se até à última revisão  do seu Próprio de onde foi eliminada. Recentemente, e a propósito da Benção de Grávidas promovida pela ASSOCIAÇÃO FAMÍLIAS no dia 28 de Abril, festa de Sta Joana Beretta Molla, o Prelado da época, Dom Jorge Ortiga, falando com este vosso amigo sugeriu que a mesma bênção também se fizesse na Sé Catedral , ideia que aplaudi imediatamente tendo sugerido o dia 18 de Dezembro, dia de Nossa Senhora do Ó . O Senhor Arcebispo concordou plenamente mas levantou a hipótese de se celebrar no Domingo mais próximo do dia 18. E ficou o 3º Domingo do Advento para, assim, se poder contar com mais mães grávidas e suas famílias. Assim ficou e permanece tendo o Cabido mandado fazer uma cópia de uma imagem do século XVIII ,guardada no Tesouro da Sé, de grande beleza e que durante dois ou três anos esteve ao culto para a bênção das grávidas. Agora, a réplica, durante o ano, está no Claustro da Sé onde é muito venerada. Assim, foi retomada a celebração, modificada, a Nossa Senhora do Ó.

   Em Portugal muitas capelas e altares foram dedicadas a Nossa Senhora do Ó. Ó passou a nome próprio ( p.ex. Maria do Ó) e , também a apelido de família.

   Esta invocação de Nossa Senhora, com as Antífonas cantadas em Vésperas, antes e depois do Magnificat, até ao Natal, de 17 a 23 de Dezembro, as chamadas Antífonas em Ó, porque todas começam pelo vocativo Ó e devem ter tido início no século VII/VIII. Ei-las:

O Sapientia
quæ ex ore Altissimi prodisti,
attingens a fine usque ad finem,
fortiter suaviter disponens omnia:
Veni ad docendum nos viam prudentiæ

17 de dezembro
Ó Sabedoria
que saístes da boca do altíssimo
atingindo de uma a outra extremidade
e tudo dispondo com força e suavidade:
Vinde ensinar-nos o caminho da prudência

 

Die 18 Decembris
O Adonai
et Dux domus Israel,
qui Moysi in igne flammæ rubi apparuisti
et ei in Sina legem dedisti:
Veni ad redimendum nos in brachio extento

18 de dezembro
Ó Adonai
guia da casa de Israel,
que aparecestes a Moisés na chama do fogo
no meio da sarça ardente e lhe deste a lei no Sinai
Vinde resgatar-nos pelo poder do Vosso braço.

 

Die 19 Decembris
O Radix Jesse
qui stas in signum populorum,
super quem continebunt reges os suum,
quem gentes deprecabuntur:
Veni ad liberandum nos; jam noli tardare

19 de dezembro
Ó Raiz de Jessé
erguida como estandarte dos povos,
em cuja presença os reis se calarão
e a quem as nações invocarão,
Vinde libertar-nos; não tardeis jamais.

 

Die 20 Decembris
O Clavis David
et sceptrum domus Israel:
qui aperis, et nemo claudit;
claudis et nemo aperit:
Veni, et educ vinctum de domo carceris,
sedentem in tenebris et umbra mortis

20 de dezembro
Ó Chave de Davi
o cetro da casa de Israel
que abris e ninguém fecha;
fechais e ninguém abre:
Vinde e libertai da prisão o cativo
assentado nas trevas e à sombra da morte.

 

Die 21 Decembris
O Oriens
splendor lucis æternæ, et sol justitiæ
Veni et illumina sedentes in tenebris
et umbra mortis.

     21 de dezembro
     Ó Oriente
     esplendor da luz eterna e sol da justiça
     Vinde e iluminai os que estão sentados
     nas trevas e à sombra da morte.

 

Die 22 Decembris
O Rex gentium
et desideratus earum
lapisque angularis,
qui facis utraque unum:
Veni et salva hominem quem de limo formasti

22 de dezembro
Ó Rei das nações
e objeto de seus desejos,
pedra angular
que reunis em vós judeus e gentios:
Vinde e salvai o homem que do limo formastes

 

Die 23 Decembris
O Emmanuel,
Rex et legifer noster,
exspectatio gentium,
et Salvator earum:
Veni ad salvandum nos,

 Domine Deus noster.

  

  

                               23 de dezembro
                               Ó Emanuel,
                               nosso rei e legislador,
                               esperança e salvador das nações,
                               Vinde salvar-nos,
                              Senhor nosso Deus.

   Esta festa, que  urge recuperar, quando o valor e dignidade da vida humana se relativizou e se vai transformando em mercadoria descartável. Aliás, a celebração desta (grande) festa remete-nos para a defesa da vida humana desde a sua concepção, sem restrições. Nossa Senhora do Ó é um grito contra o Aborto. Venerar Nossa Senhora com esta invocação antes e depois do Natal, é fazermos presente o mistério da Encarnação do Filho de Deus e cada criança concebida, desde esse momento, que tem o direito inalienável a ser defendido. O DIREITO À VIDA é o primeiro e mais importante direito humano! O DIREITO À VIDA, desde o início prolonga-se por toda a vida até à morte natural.

  Por isso, também a Eutanásia não pode ser aceite numa civilização que invoca , a torto e a eito, os direitos humanos.

  Sim, All human lives matter!, toda  a vida humana interessa e tem de ser defendida.

 

  Que Nossa Senhora do Ó interceda por nós e, sobretudo, por todas as crianças por nascer e dê força às mães para deixarem nascer todos os seus filhos.

 

UM SANTO NATAL!

 

 

SILERE NON POSSUM!

 

Carlos Aguiar Gomes,  ao entrar no tempo das Antífonas em Ó de 2022

 

 

P.S.

   Dia negro para o DIREITO À VIDA, dia 9 de Dezembro de 2022: o Parlamento voltou a aprovar a “ despenalização” da Eutanásia. Mais uma machadada tremenda na Cultura da Vida e este atentado contra a Vida Humana foi aprovado na véspera de se comemorar o DIA INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS ( 10 de Dezembro)!

   Caro Amigo leitor: já se informou se o seu voto contribuiu para este desaforo contra a VIDA HUMANA?

  O ACTO DE MATAR passou a um chamado “ direito a morrer com dignidade”! Para onde caminhamos? … Uma Cultura do descartável…Uma Civilização da Morte…Um Povo sem “ substrato”… Sem Alma?

  No Canadá, por exemplo, onde a política pró-eutanásia vai de “vento em popa”, o número de pessoas eutanasiadas no último ano foram …10 000. O Professor Tim Stainton, Director do Instituto Canadiano para a inclusão e cidadania da Universidade  da Colômbia Britânica, descreveu a lei canadiana, cuja primeira versão é muito idêntica à nossa, como:

‘ provavelmente a maior ameaça existencial para os deficientes desde o programa nazi da Alemanha nos anos 30 ( do século XX)»

Lamento e protesto com toda a minha força contra esta indignidade que uma maioria parlamentar , em Portugal, aprovou recentemente ( 9.XII.22).

 


domingo, 11 de dezembro de 2022

" ...Sem a palavra, que vem a ser a voz?..." Sto Agostinho

 Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo

(Séc. V)

João é a voz, Cristo é a Palavra

João era a voz, mas o Senhor era a Palavra desde o prin­ cípio. João era uma voz passageira; Cristo era desde o princípio a Palavra eterna.
Sem a palavra, que vem a ser a voz? Vazia de qualquer sentido inteligível, não é mais que um simples ruído. A voz sem a palavra entra nos ouvidos, mas não chega ao coração.
Entretanto, vejamos o que sucede na comunicação do nosso pensamento. Se penso no que vou dizer, já está a palavra presente em meu coração; mas se pretendo falar contigo, procuro o modo de fazer chegar ao teu coração o que já está no meu.
Então, para conseguir que chegue a ti e cale em teu coração a palavra que já está no meu, recorro à voz e, mediante ela, falo contigo. O som da voz leva ao teu espírito o sentido da minha palavra; e quando o som da voz te fez chegar o sentido da minha palavra, esse mesmo som desaparece; mas a palavra que o som te transmitiu está já em ti sem deixar de permanecer em mim.
Não te parece que esse som que te comunicou a minha palavra está dizendo: Convém que ela cresça e eu diminua? O som da voz fez-se sentir para cumprir a sua tarefa e desapareceu, como se dissesse: Com isto a minha alegria está completa. Retenhamos a palavra; não percamos essa palavra concebida no mais íntimo do nosso coração.
Queres ver como a voz passa, enquanto a divindade da Palavra permanece? Que foi feito do baptismo de João? Cumpriu a sua missão e desapareceu. Agora é o baptismo de Cristo que está em vigor. Todos acreditamos em Cristo, todos esperamos a salvação em Cristo. Foi isto que a voz anunciou.
Precisamente porque é difícil não confundir a palavra com a voz, tomaram João pelo Messias. A voz foi confundida com a Palavra. Mas a voz reconheceu-se a si mesma como tal, para não lesar a Palavra. Disse: Não sou Cristo, nem Elias, nem o Profeta. Quando lhe perguntaram: Então, quem és? Respondeu: Eu sou a voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor. Voz do que clama no deserto, voz de quem quebra o silêncio. Preparai o caminho do Senhor, como se dissesse: Sou a voz que se faz ouvir apenas para introduzir a Palavra no vosso coração; mas Esta não se dignará entrar onde pretendo introduzi-la, se não preparardes o caminho.
Que quer dizer: Preparai o caminho, senão: «Suplicai insistentemente»? Que quer dizer: Preparai o caminho, senão:
«Sede humildes de coração»? Imitai o exemplo de humildade de João Baptista. Consideram-no o Messias, mas ele responde que não é o que julgam; não se aproveita do erro alheio para uma afirmação pessoal.
Se houvesse dito: «Eu sou o Messias», facilmente teriam acreditado na sua palavra, pois que já o tinham como tal antes de o haver dito. Mas não disse; antes, reconheceu o que era, disse o que não era, foi humilde.
Compreendeu donde lhe vinha a salvação; compreendeu que não era mais que uma tocha ardente e luminosa, e receou que o vento da soberba a pudesse apagar.

Família Ulma

  Faz hoje três anos que uma família inteira foi elevada às honras dos altares. A Família Ulma, uma centelha de luz nos anos sombrios da Seg...